19/08/2016

Neve

  Neve. Bela de se contemplar.

  Seus delicados flocos pareciam cair das estrelas naquela noite de lua cheia, disseminadas pela vastidão do céu, esculpidas com tamanha perfeição que, ao vislumbrá-los bem de perto, custoso era respirar. E quando acorrentar os pulmões já não era mais opção, o mesmo se libertava, moldando e empurrando vapor dos lábios, como névoa à soprar, esvoaçando-a para, depois, repousar com seus irmãos; aglomerados num parque sem nome, sem multidão, sem confusão.

  De quando em quando, uma criança juntava-se àquele espetáculo, sonegando entre uma macia camada de neve. A mesma trajava-se dos pés à cabeça; dois suéteres de lã sobrepostos num quente casaco-de-peles cinza-prateado, lindamente atado num matagal de pelos entre o pescoço, de suave roçar.

  Não desejava menos que lá continuar.

  E continuou.

  Ora mais tarde, cristais de neve dormitavam em seus curtos cabelos acastanhados.

  Ora mais tarde, o sossego acalmava sua alma; e aqueles olhos-dravita, plenos de inocência e intriga, cessavam vagarosamente como um pôr-do-sol.

  Ora mais tarde, aquela menina lá continuou.

  Até que acordou.

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