22/05/2018

Alimento

    Empertigado, fito o teto desolado; apodrecido pelos anos infindáveis. Poderia eu enxergar além? Nada vejo senão teias interconectadas sob minha cabeça; acima de meus olhos, a saciar curiosidades pueris. Aranhas etéreas a pincelar-me o corpo numa prisão angustiante. Fadas alegres, a entoar canções afoitas, tímidas e deliberantes.

    "Presenças fulgurantes. . ."

    Imagino minha face rubra enquanto amarfanho-me nos finos cobertores que cobrem um colchão esfarrapado. Por entre sombras e escuridão, um murmúrio gélido sopra de meus lábios ressecados:

    "Alimento minha paixão na vastidão oceânica do espaço-tempo. . ."

    A calamidade refreou, e via-me inundado de um líquido quente e viscoso, como se minhas lágrimas adquirissem um teor lívido e mortiço, a percorrer meu rosto como brasas incandescentes. Um segundo bastou para que eu abrisse as pálpebras e tudo voltasse ao normal. Fora, afinal, um sonho. . .
    Apenas um sonho.

    - Bonita frase.

    Viro-me, assustado.

    - Leste meus pensares? - indago, abusivo.

    Era uma menina. Súbito, percebo: não estou em meu quarto, mas numa sala colossal cujas alturas não têm fim. Boquiaberto, não consigo crer no crível; tampouco ver o visível. Como entender o inteligível?

    - Não precisa ser tão agressivo, Gabriel. Apenas acompanho o dia, a noite e o luar - disse a menina, quase a cantar.

    Silêncio. Pondero suas palavras, assentindo.

    - Sabe? É deprimente saber que as únicas coisas que podem nos ver são os seres humanos. Não mostramos nossa totalidade. É estranho; é como se existíssemos sem existir. . . Sim. Perdemos tempo. . . e o ganhamos - conclui a estranha menina. - E não sou estranha. Sei que escreves esta história.

    - O quê? - fito-a, confuso. - Crio vida, mas não sei o que ela é. . . Por que escrevo a mim mesmo num cenário inteiramente diferente do que aquele em que verdadeiramente estou? Sou munido de preocupações, anseios e limitações. Por que O Criador não faz diferente?

    - Por que ele quer vê-lo sofrer. Quer que experimente o máximo sofrimento, para alcançar o máximo amor. Não há limites. . .

    É infinito.





    


04/12/2016

Veemência

    Expectativas? Inexistentes. O chamar incessante das chamas faziam-me vibrar; acalentar uma dor à muito passada. Vergonha. Desprazer. Medo. Meros palavreados se assimilados às sensações pulsantes no âmago de minha vaidade. Interior.
    Houve um desencadear. Um mar de sentires eletrizantes, porém cálidos e monocórdios. Meu fim culminou em fracasso.
    Nada bastava para calar este sofrer. Virava enlouquecedor. Enfadonho. Fazia-me desacreditar nos princípios à mim enfurnados num esgarçar de cólera. Num simples piscar. Não dava pra parar de imaginar.
    Cedi às tentações. Por que será? O nojo brota assim, num mero entonar.
    Estou confuso. Inseguro. Pertinente ao mal que assola minha existência.  Fará você algo para me ludibriar? Não aguento. Quero chorar.
    Percebo a inutilidade da arte. Sempre fora evidente aos pés de meus olhos. Não demorei aperceber.
    Ilusão. Não há paixão que me apraz. A mesma é pura e simples.
Vai.
Volta.
    Lamúrias. Beber com o olhar. Apreciar. Afundá-los no lago do viver.
    Contemplar. Muito devido. Confusão. Não é doce a alusão.
    Comédia. Todos seguem a ação. E no pico do cume incólume, encontram-se verdades. Turbulências desmitificadas ao ato verbal.
    Sim. A vida não faz o menor dos sentidos. O mundo. Pessoas. Que pensa que elas são?
    Desejo. Sempre fora o meu dissimular. Profundo. Belo e ímpar. Limitados pela compreensão. Tanto quanto a visão.

    Tudo no linear da aceitação.

Odeio-te.
Amo-te.
Adoro-te.

    Declaração. Um lado. Outro. Vigente nomeação.
Perjura-te na alma, aberração. Pois quero-te e abomino-te. Alucinação.

    "Por favor, me veja". "Por favor, me entenda". "Por favor, se surpreenda!".

    Tudo idiota. Tudo danoso. Tudo ilusão.

   

21/10/2016

Uma Faceta entre Multidões

  Èra estranho afirmar. Sua boca seca de nada; transeuntes numa dança passadelicamente monocórdia e tediosa; a vida passando diante de seus olhos como um trem em câmera lenta. Não importava quão longo o era, a certeza de seu término inalava o doce cheiro do inevitável. Ah, e como odiava o inevitável. Repudiava-o com toda a educação inserida ao longo da vida.


Como odiava.

20/10/2016

Dahvinci

  Chegou um dia no qual todos esperavam. Era o aniversário de Dahvinci, um dos mestres magistrais vigentes lá em Pastolago. E, como não era de se esperar, muitos vieram a cerimônia ('festa' não tinha muita apropriação para o caso) e trajaram suas melhores roupas. Não demorou muito para o salão quatro-paredes exageradamente grande e lustroso encher-se como a barriga de um gordo faminto.

  Mas. Algo aconteceu. Um estrondar súbito de porta rangendo o chão. Tudo se calou. O burburinho dos convidados, todos solenes e falantes (como qualquer festança da nobreza) fora rapidamente substituído pela tensão, quase palpável, irremediada de um ar silencial perturbador. Talvez você não compreenda o porquê. Bem, não estou com vontade de dizer.

  O sujeito que irrompeu a música e os fragores tinha uma altura considerável, embora nada ameaçadora, beirando os 1, 72. Dirigiu-se ao público de maneira bastante displicente considerando o patamar da comemoração. E, ajustando a gravata, falou:

- Eu sou Dahvinci, e ergui dos mortos...

  E o barulho recomeçou. Apesar de lá estar, vivo em pessoa, não deram a devida atenção.

  E assim termina a história incrivelmente tediosa de... vocês sabem.


18/10/2016

O Desconhecido

  Um garoto bocejava. Ao lado dele, postava-se outro completamente diferente.

  Eis a questão: 

  Mmmmmmmm....

17/10/2016

Brincadeiras

Ninguém gosta de brincar.
No fim das contas, criamos nossa verdade.
Ah, o mundo é ideal para brincadeiras.