14/08/2016

Retração

  Como se o mundo ao seu redor sequer existisse, Carl movia-se tranquila e confiantemente; afinal, problemas não existiam para ele. Deus lhe abençoou com uma família rica, boa e qualificada. Não tinha procupações. O único que estava acima do rapaz era Deus. Olhava aqui; onde pobres mendigavam dinheiro. Olhava lá; onde brigas ocasionais aconteciam de mês em mês. Olhava acolá; pessoas aparentemente tristes, como carrancas indo e vindo. A situação deles? Pouco importava. Largava o dane-se para tudo e a todos. "Sou o dono do mundo", pensou Carl, quase que sem querer. Todavia, era verdade.

  Sob o barulho frenético de carros, ônibus e uns tantos caminhões, Carl avistou uma cafeteria típicamente comum; isto seria divertido. Com os raios de luz petulantes cutucando seus cabelos claros, jogou-os para trás e para lá foi, nem tão lentamente, nem tão rápido demais. "Sem pressa, Carl. O mundo não vai acabar", pensava, sorrindo descontraidamente enquanto se aproximava da vitrine da cafeteria.

  Não durou muito tempo. Um homem, de estatura comum, com rosto comum e de aspecto comum, franziu as sobrancelhas ao vê-lo. Um riscar de fúria quase imperceptível passou pelo seus olhos por um décimo de segundo.

- Ou! Você não é aquele cara do bar da noite passada? - indagava o homem, em alto e bom som.

  Definitivamente, uma oportunidade. 

- Sim, eu também o conheço. Mas, deve me desculpar por eu não ser muito bom de memória. Qual era seu nome? - começou Carl. "Conheço você". Seu nome era Jason Smith; lembrava de ter humilhado-o na frente de toda sua loja, roubando sua namorada. "Ex-namorada, na verdade". Sorriu. A lembrança trouxe-lhe boas recordações; mas não tão boas à ponto de tranquilizá-lo por completo.

  E, passando por aventuras e desventuras; convenceu-o de que ele tinha se enganado, de que àquilo não passava de um simples mal-entendido. Fácil.

  "Esperteza está em falta, huh?", pensava, deliciando-se.

  E continuou fazendo a mesma coisa; três vezes ao dia. E, num piscar de olhos, não se encontrava nas ruas, nas lojas, em lugar algum. E sim, em casa, sob seus quentes cobertores e confortável colchão.

  Sentia-se só.

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