03/08/2016

Meu Conto

  Ninguém gostava de Elyse. Ela não compreendia por quê. Os olhares que eram-lhe enviados; cheios de estranheza, repulsa e ódio, perseguiam-na a cada passo, a cada atravessar de portas, a cada escadaria que subia. Sentia esses olhares; e tudo que podia fazer era aguentar. Mas não conseguia. Abaixava a cabeça, evitando contato, como que se sentisse inferior.

  Ela se encolhia quando fitavam-na. Aqueles olhos eram como facadas em seu estômago; odiava-os. Se fosse feia, tudo isso seria resolvido, mas Deus deu-lhe um rosto bonito. 

  Na escola, era diferente. Enquanto muitos iam e vinham fazendo a maior algazarra, Elyse ficaca quieta, curvada e praticamente imóvel na sua cadeira. Odiava isso também; queria muito se socializar, fazer amigos, ser feliz... Mas simplesmete não conseguia. Queria, mas não conseguia. Travava. E, quando não, achava-se uma completa tola, burra e enrolada.

  Nunca falava alto. Sempre baixo. Qualquer coisa, seja por reprovação dos professores, seja por zoação dos colegas de escola, seja por tudo. Não conseguia segurar as lágrimas; fazia o seu melhor, mas nunca era o bastante. Muitas vezes não fazia nada, e mesmo assim todos insistiam em brincar, zoar, falar.

  Mas um dia, se apaixonou. Era um rapaz alto; magro e bonito. Admirava-o por ser tão extrovertido, esbaldando confiança e segurança. E, logo essa admiração tornou-se algo a mais.

  Olhava de soslaio sempre que podia para ele. Logo, Elyse descobriu que seu nome era Nathan. E, no fim das contas, nunca teve coragem de falar
com ele.

Um ano se passou. Dois. Três. Era quase uma mulher, e ainda cultivava essa paixão. 

Mais um ano se passou. Dois. Três. E era já uma mulher, ainda apaixonada pelo mesmo homem.

Anos, anos e mais anos se passaram, e ela não podia mais viver sem ele. Vestiu-se, maquiou-se e foi, com o coração badalando forte em seu peito.

Pensava no que dizer, no que fazer, no que temer. Nada poderia estragar aquele momento. Nada!! Absolutamente nada!!

Elyse, enfim, o encontrou. Jazia sentado num banco, próximo à uma árvore e à sua casa. Apesar de ter passado dos trinta, conservava a beleza, jovialidade e charme de antigamente. Seu coração bateu mais forte, e sua barriga, doia de tanta ansiedade. Ele estava lá, na sua frente, olhando o horizonte. Nada a atrapalharia.

De repente, caiu de joelhos, e começou a chorar. Salgado era o gosto das lágrimas, e amarga era sua falta de coragem. Precisava ir. Precisava. 

E ela foi.

Mas, quando menos esperava, uma mulher, muito mais bonita que ela, corria aos seus braços e o beijava intensamente.

Uma dor indescritível quebrou-a. 

Correu para casa, para o sol, para a rua. Para qualquer lugar, menos àquele.

E então, atirou-se ao mar; esperando afogar sua amargura. Sua dor insistente. Seu coração partido.

Elyse mergulhou num sono eterno.

                                                                                        -- Fim.



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